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 Namor 01 - Uma guerra em meu reino Parte I
NamorO primeiro mutante, o Príncipe Submarino, o Imperador das Profundezas. Namor. Um dos grandes vilões do planeta, sob um ângulo poucas vezes explorado antes. Quando se tem a responsabilidade de nunca poder falhar, que atitudes tomar quando todo seu reino parece ruir a olhos vistos? Explodem guerras civis e ataques inimigos, as pessoas morrem e pedem sua ajuda. Você não é capaz de ajudá-las. Acompanhe a partir de agora as dificuldades, os medos, as paixões e as lutas de um dos mais poderosos e temidos monarcas de toda a terra. Imperius Rex!

Fevereiro / 2010



NAMOR
Episódio 01

UMA GUERRA EM MEU REINO
Parte I

Por Lucio Flavio



- Quer que eu leia novamente suas atividades de hoje, majestade? – a voz cheia de pompa invadiu o tranqüilo silêncio matinal. Ao longe era possível escutar o ruído característico dos golfinhos ou um chamado de uma majestosa baleia jubarte.

Namor, o Imperador das Profundezas, acabava de degustar seu desjejum predileto (algas requentadas ao molho de coral) e não prestou muita atenção na pergunta de seu assistente.

Ele pigarreou, desconfortável, e perguntou novamente:

- Vossa Majestade gostaria que eu lesse mais uma ve...

Porém, sua pergunta foi interrompida pelo abrir das portas na outra extremidade do saguão. Nadando graciosamente vinha Namorita, sua pele azul ainda mais acentuada pela fraca iluminação da manhã.

- Namor! – saudou ela efusivamente, esquecendo-se de qualquer protocolo de tratamento. Ela sabia que Namor detestava ser chamado de nomes pomposos quando se tratava de familiares.

O homem a cumprimentou com um largo sorriso educado e um singelo aceno de mão, logo voltando sua atenção ao assistente.

Desconfortável e aborrecido, o assistente não perguntou e foi logo recitando os compromissos do Imperador:

- Primeiro: chegada do carregamento de novas armas e armaduras para o exército atlante; segundo: solenidade tradicional do Dia do Estudante no colégio Imperial I; terceiro: almoço oficial de aniversário do ministro Arcapks; quarto: reunião extraordinária com o Secretário de...

- Chega, Totis.
– interrompeu Namor, acenando como quem espanta uma mosca chata. – Estou acabando de comer e essas listas de deveres sempre me tiram o apetite.

E, virando-se para Namorita, perguntou:

- Namora não vai descer? Seria muito de meu agrado acabar esta refeição ao lado dela. Faz muito tempo desde a última vez que conversamos.

A outra acabou de engolir uma porção generosa de algas antes de responder.

- Ela e Caius estão acabando de se arrumar, primo, foi o que me falaram. Mas aposto que estão fazendo amor, eles acham que eu ainda sou criança.

- Pode-se dizer que nós não achamos isso, Namorita.
– respondeu Caius do outro lado do saguão. Ele e Namora tinham acabado de adentrar no recinto. – Tendo em vista o fato de que ninguém aqui se lembra de você criança.

Namorita emudeceu instantaneamente, aparentemente encabulada e ligeiramente irritada.

Caius era um atlante muito grande e forte, tinha uma feia cicatriz que cortava o lado esquerdo de seu rosto, do queixo aos cabelos curtos e brancos. Seu corpo era repleto das tradicionais tatuagens tribais que os atlantes costumam fazer. Essas tatuagens indicavam sua origem pobre, embora ninguém ali, exceto sua esposa Namora, conhecesse o passado dele. Ele tinha uma aparência séria e austera, ainda mais reforçada pela impressionante farda atlante que usava, repleta de condecorações e estrelas.

Namora parecia bizarramente normal ao seu lado. Seu cabelo dourado caía em cascata sobre sua pele rosada e seus fartos atributos corporais eram ainda mais acentuados pelos trajes sumários que usava naquele momento. Um sorriso bobo de satisfação estava estampado em sua adorável face.

- Sentem-se e comam algo. – chamou Namor, indicando duas cadeiras vagas a seu lado direito. – A alga está simplesmente divina.

- Obrigado, majesta..., caham, Namor.
– agradeceu Namora, se acomodando e servindo-se das algas. Ela quase aborrecera o Imperador.

- Então, Caius, já vestido desse modo logo de manhã?

- Ora, Imperador, não sei se sua agenda foi informada ao senhor...


Sr. Totis pigarreou ironicamente.

-... mas esta manhã nós iremos inspecionar a chegada dos instrumentos de Guerra. É uma das minhas funções primárias como Primeiro General do Exército Atlante.

Namor encarou Caius com vívido interesse. Ele parecia ter sido feito sob medida para este tipo de coisa. Sua escalada de simples soldado até primeiro general havia sido impressionante, seu desempenho em combate e sua inteligência para estratégias assustavam até mesmo o Imperador.

Caius parecia ser a pessoa perfeita para substituí-lo no poder quando ele morresse.


O Inspetor Oficial do Império Atlante, Nurmdi S’Task, estava muito próximo de se aposentar. Após longos 40 anos trabalhando incansavelmente, ele sentia que suas costas e juntas não eram mais as mesmas. Ele estava obsoleto.

Aquela manhã não teria nada de especial, era só outro começo modorrento e cansativo de dia, um dia que prometia ser longo. Agora um carregamento inteiro de equipamentos vindos de Wakanda e, mais tarde, um novo guarda-roupa de verão para a Srta. Namorita. Ele não sabia qual seria merecedor de mais atenção.

- ‘Dia, Nurmdi. – saudou um de seus guardas, era Noj, o mais antigo de todos. Com um murmúrio de satisfação ele se sentou em sua cabine na entrada do enorme galpão, começou a arrumar as câmeras de segurança e sua conexão com a guarda principal do Império. Perto dali, Nurmdi checava todas as planilhas.

Logo, mais e mais guardas chegavam para ocupar seus postos e todos, sem exceção, cumprimentavam Nurmdi com um largo sorriso no rosto.

- Sabe, velho, quando você se aposentar eu acho que vou pedir transferência. – comentou Wiggs, um dos soldados mais novos, com um ar de riso. Todos sorriram e concordaram.

- Não vai demorar muito, Wiggs, só mais esta entrega e algumas semanas. Acho que só Poseidôn sabe o quanto preciso de um descanso ao lado de minha Gladys.

- Lamento interromper o chá com biscoitos, crianças.
– disse Noj pelo auto-falante. – Mas as belezinhas acabaram de chegar.

Sobrevoando os longínqüos portões que limitavam o acesso àquela área, vinham dois submarinos modernos e reluzentes. E gigantescos.

No começo os atlantes encaravam os avanços científicos propostos pelo Imperador como loucura. Mas aos poucos eles foram se tornando necessários e passaram a fazer parte integral da cultura atlante. A maioria dos habitantes da metrópole usava submarinos caseiros para transporte hoje em dia e uma gigantesca quantidade de produtos eletrônicos à prova d’água podia ser vista em todas as casas do lugar.

- Não é todo dia que se vê um desses. – comentou Nurmdi, muito impressionado.

Os seis guardas (exceto Noj, que continuava na guarita) circundaram o inspetor para realizarem o procedimento padrão.

- Bom dia! – ele saudou, usando sua melhor cara de bom-moço. O sisudo motorista do submarino não respondeu.

Sem deixar se abalar (é muito comum encontrar pessoas mau-humoradas nesse ramo), o inspetor continuou:

- Posso ver os documentos de praxe?

O motorista virou-se para procurar algo dentro da cabine, mas quando voltou não era nada disso que ele tinha em mãos. Era uma arma de energia. Ele deu um tiro perfeito que atravessou o abdômen de Normdi.

Repentinamente, 10 mascarados saltaram do compartimento traseiro do submarino, pegando os estarrecidos guardas de surpresa. Feixes de energia rasgavam a água durante o embate.

- Noj! Mande logo o alerta para a cen... – Wiggs tentou dizer, mas sua cabeça foi pulverizada por um tiro bem dado.

Antes que o guarda pudesse fazer qualquer coisa, sua cabine de “proteção” foi dizimada por uma dezena de tiros. Ele não conseguiu sobreviver.

Todos os outros guardas também foram mortos com igual facilidade.

- Tudo certo, chefe, pode trazer o monarca. – disse um dos agressores pelo rádio.

Se ele tivesse prestado mais atenção teria visto que Normdi ainda estava vivo, lutando para respirar a água contaminada pelo seu próprio sangue. E pelo sangue de seus amigos.

Se ele tivesse prestado mais atenção veria que os lábios do inspetor deixaram escapar:

- Oh, minha Gladys querida...

Antes de se selarem para sempre.


Caius resmungava de impaciência. O automóvel imperial que deslizava preguiçosamente através das casas de Atlântida estava se movendo mais lentamente que o normal. Culpa de Namor, que insistia em passear com o torso para fora do “teto-solar” e parava de dois em dois segundos para cumprimentar uma senhora ou beijar um bebê.

- Sabe, Caius, você tem que aprender a ser mais paciente. – aconselhou-o Namor, após se cansar de dar espetáculo para a população. – Você é... militar demais, entende? Você não ama Atlântida? Então demonstre isso para cada habitante que encontrar! Então eles vão passar a te amar.

- Claro, majestade. Obrigado.


Namor detectou o sarcasmo na voz dele e se preocupou. Ele precisava ensinar a Caius que a vida de um Imperador não é só guerra. Senão, o outro começaria a fabricar suas próprias guerras em tempo de paz.

Mas conteve o ímpeto de continuar com as lições e passou a se concentrar na paisagem diversificada do lado de fora da janela.

- Quanto custa um armamento importado de Wakanda, Majestade?

- Essas armas são criadas com uma composição parecida com a do escudo do Capitão América. Mas como é impossível sintetizar vibranium e adamantium novamente, foi preciso um novo componente. Um material que encontramos em nossas rochas mais antigas. Ele enfraquece os outros dois, mas os deixa suscetíveis à fusão. Graças a esta descoberta, esses equipamentos foram um presente de T’challa. O valor é incalculável ainda.


Caius parecia rir internamente de uma piada secreta que ninguém mais entendia.

- Chegamos, Imperador Namor. – anunciou o motorista. Namor olhou pela janela e viu a entrada fortemente guardada daquela área. O motorista apresentou o crachá e prosseguiu

- É, nós temos nossa própria Área 51. – comentou ele, com um sorriso presunçoso no rosto. Toda aquela região era composta por 20 galpões do tamanho de campos de futebol espalhados para todos os lados. – Livros raríssimos, artefatos místicos, armas milenares, os últimos avanços científicos. Tudo aqui.

Caius concordou, também impressionado.

Uma movimentação estranha no galpão de destino chamou a atenção de ambos. Dezenas de guardas corriam e gritavam uns com os outros ao mesmo tempo em que descarregavam dois gigantescos caixotes.

Um inspetor totalmente novo se apresentou a Caius e Namor quando eles desceram do veículo.

- Onde está o outro? – perguntou Caius, surpreendendo Namor com o tom cordial de sua voz. – Nur... Nur-alguma-coisa. O antigo.

O inspetor também se mostrou preocupado.

- Nós não temos nenhuma notícia dele, senhor General.

- E... por Poseidôn! O que aconteceu com a cabine de guarda?


Namor foi até lá investigar. Totalmente destruída. De uma maneira bastante incomum.

- Ora, Sr. Caius, nosso motorista teve um pequeno problema na hora de desacelerar o submarino... – a voz do inspetor estava repleta de embaraçamento.

Caius pareceu aceitar aquela desculpa passivamente, coisa que surpreendeu Namor. Estaria ele ficando neurótico ou aquelas marcas nos restos da cabine eram de energia protoplasmática? E aquilo ali no canto seria sangue?

Afastando os pensamentos conspiratórios da cabeça, Namor virou-se com um ar cansado e exigiu:

- Vamos logo conferir essas armas. Estamos atrasados.


T’Aqua estava simplesmente radiante ao acordar hoje. Seu colégio (o Imperial I) receberia a visita do Imperador Namor em pessoa! E ele fora escolhido para ler o texto de boas vindas! Para o Imperador Namor!

Ele tinha passado os últimos três dias diante de um espelho para não fazer feio. Era emoção demais para seu corpinho de seis anos.

- Não se esqueça, T’Aqua, ao falar diretamente com o Imperador...

- ...chamá-lo somente de “Vossa Majestade” ou “Vossa Alteza”. Dá um tempo, mãe! Eu já sei disso.


T’Aqua sentiu seu estômago se contrair de nervosismo ao avistar a escola, depois o mesmo estômago pareceu encher-se de chumbo ao avistar os primeiros veículos oficiais.

- Não se preocupe, T’Aqua. – recomendou a diretora (embora ela mesma tenha passado a última semana sem conseguir dormir, preocupada). Vai dar tudo certo, querido.

Agora eles já estavam no auditório lotado. E três crianças entraram nadando rapidamente, os rostinhos quase explodindo de felicidade, gritando:

- Eles chegaram! Eles chegaram! T’Aqua achou que fosse morrer de ansiedade.


A montagem urbana de Atlântida era engraçada. O principal presídio, com cerca de seiscentos dos piores criminosos dos mares, ficava somente a algumas quadras da principal escola, a Imperial I. O presídio ficava relativamente em uma área afastada e inabitada, mas ainda assim era o local perfeito para uma catástofre.

A figura encapuzada não estava pensando nisso enquanto atravessava as estranhas alamedas que rumavam para a prisão. Na verdade ela recusava-se a pensar em qualquer coisa.

- Cumpra a missão. – ela repetia até chegar às portas de seu objetivo. Foi barrada.

- Não é hora de visitas.

Ficou aborrecida ao ter que mostrar o cartão que indicava assuntos do Imperador. Conseguiu entrar.

- Chamem o preso 609. – berrou o guarda-chefe, acomodando a figura em uma das salas de interrogatório (como exigido).

Ele não se importou com o capuz. Tempos estranhos, pessoas estranhas.

Mais três guardas chegaram, traziam consigo o preso exigido pela figura obscura. Eles se juntaram, a contragosto, ao guarda-chefe.

- Tudo pronto? – perguntou o preso, ansioso.

O encapuzado concordou com a cabeça.

- Então? O que estamos esperando, Tot...

- Sem nomes! Idiota acéfalo!

- Desculpa, mas quando entramos em ação?


O outro lhe mostrou o rádio, ambos ficaram em silêncio. Esperando.

- Esse pessoal nobre é tudo doido. – resmungou o guarda-chefe, com sono.


Namor estava encantado e bobo. Ele sempre ficava assim quando era homenageado, e isso acontece bastante quando se é imperador.

Aquele garoto, Namor não conseguia se lembrar bem do nome dele (algo com “aqua”), estava terminando o discurso de boas-vindas nesse instante. Era um discurso fantástico.

Ao fim dele todos bateram palmas calorosas e Namor se viu obrigado a levantar e cumprimentar a criança. Que parecia querer sumir.

- Ora, muito obrigado, Colégio Imperial I. – agradeceu ele ao microfone. – Mas parece que mudamos um pouco o sentido dessa solenidade. Hoje é dia dos estudantes, os estudantes é que deveriam estar sendo homenageados! Preparei um pequeno discurso... para falar a verdade foi a Namora que preparou, sou avesso a essas coisas.

Bom gracejo, todos começam a rir. Menos Caius, ele estava tenso demais para isso. Pegou um comunicador do bolso e sussurrou:

- Agora.


A figura encapuzada e o preso 609 não alteraram seu estado de espírito com o aviso. Lentamente eles colocaram dois protetores de ouvido de silicone.

Os guardas acharam aquilo bizarramente suspeito e se aproximaram para exigir respostas, mas já era tarde demais. A figura puxou algo das vestes (no formato cilíndrico, liso, prateado) e apertou o botão vermelho.

Um apito, estridente, profundo, agudo, alto, saiu daquilo. Ele parecia perfurar, derreter e congelar os cérebros dos guardas, que morreram instantaneamente.

Mas era mais que uma arma, era um sinal que pôde ser ouvido por toda a prisão. O sinal do apocalipse.

Todos os presos avançaram para cima dos guardas ao mesmo tempo. Cadeiras e mesas eram quebradas para servirem de arma, super-poderosos se livraram do colar inibidor de poderes e destruíram paredes e barras de aço.

Os dois mil guardas não foram capazes de conter o ataque maciço. Todos morreram naquele dia.

A figura encapuzada sorriu e apertou a mão do preso 6753, mas este não mudou o semblante assassino e quebrou a mão do outro. Um grito inaudível escapou da boca dele.

Aproximando-se por trás, ele estrangulou o sujeito com a corrente de suas algemas.

- Um lembrete de meu irmão a você, Sr. Totis. – ele disse, sem escutar o som de sua voz.

Com uma risada sinistra escapando boca afora e ainda usando os protetores de silicone, o preso se juntou à massa de fugitivos que debandava para fora da cadeia. Havia em todos eles uma vontade de sangue, desejo de vingança.

Todos queriam Atlântida destruída. Todos queriam Namor morto.

Posted on Saturday, February 20 @ 12:44:49 BRST by Henrique_JB
 
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