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 Batman 45 - Origens Secretas Parte 2 - Silêncio Ensurdecedor
Batman

Após tentarem matar Helena Bertinelli, Bruce Wayne precisa revelar um grande segredo para ela... Mas as conseqüências dessa conversa podem ser fatais para os dois!





Helena Bertinelli.

A Caçadora.

Uma aliada ocasional em minha cruzada contra o crime. Sempre tive ressalvas com relação a seus métodos. Por vezes, excessivamente violenta. A fúria a deixou cega várias vezes. Descuidada. Poderia morrer sem orientação. Porém, diferente do que eu fiz com Tim, ou Jason e Dick antes deles, diferente até mesmo do que eu fiz com Bárbara, eu não mostrei um caminho para Helena.

Eu apenas dificultei.

Queria que ela desistisse. Queria que ela deixasse essa vida de vigilante uniformizada antes que ela matasse alguém ou ela própria acabasse nas mãos de algum facínora como o Coringa ou o Duas-Caras. Mesmo assim, ela suportou tudo que falei para ela, a maneira como a tratei, as repreensões, críticas e falta de confiança.

Ela nunca se mostrou inclinada a desistir.

Foi quando me dei conta da sua fibra. Do que ela era feita. No fundo, tudo que ela tentava fazer era receber minha aprovação. Durante a Terra de Ninguém, ela chegou mesmo a usar o uniforme da Batgirl. Não pelo símbolo, mas como uma forma de se mostrar digna de combater o crime na minha cidade. Eu não amoleci com ela, mas resolvi mudar a abordagem.

Indiquei a Caçadora para a Liga da Justiça. Passei a trabalhar com ela. Mesmo assim, nunca troquei uma palavra amistosa com ela, nenhum incentivo. Apenas a cobrei, mais do que jamais fiz com qualquer pessoa, e a tratei pior do que qualquer Robin poderia imaginar que eu fosse capaz.

Ela se manteve firme.

Porém, ainda havia muita ira dentro dela, muito ódio. Ela tentou matar Prometheus, e eu cuidei pessoalmente para que ela fosse expulsa da Liga. Senti como se, após meses de treinamento, ela não tivesse aprendido nada. Como se ela não pudesse ser salva de toda a fúria e dor que essa vida carrega. Como se ela fosse incapaz de ser algo mais.

No fundo, eu sempre quis que ela desistisse. Sempre a tratei pior do que qualquer um que já esteve ao meu lado. Sempre cobrei dela mais do que cobrei de mim mesmo. Eu menti, manipulei e trapaceei Helena dezenas de vezes para que ela deixasse essa vida. Queria que ela continuasse sua carreira como professora, sem saber que eu era por trás da máscara. Sem imaginar como a vida dela poderia ter sido diferente em uma outra realidade.

Sem opção.

Como um pai severo e intolerante faria. Apenas dando a primeira e última palavra, sem aceitar questionamentos ou rebeldia.

Eu tinha meus motivos e os achava perfeitamente justificáveis.

Eu contei toda a verdade a ela horas atrás, na mansão. Agora estamos no alto da Catedral de Gotham, vigiando. Revelei minha identidade secreta e tudo que eu sei sobre nosso passado em comum.

Ela não disse uma só palavra desde então. Não me agrediu, como eu achei que faria. Não discutiu, não exigiu provas nem respostas. Não se revoltou. Me encarou nos olhos e não desviou o olhar, nem por um instante. Não chorou. Não gritou.

Ela agiu muito parecida comigo, quando meus pais foram mortos.

Talvez porque Helena seja minha filha.


A Quadrim apresenta:
Batman – o Detetive Encapuzado!
Por Raul Kuk


Origens Secretas
Segunda Parte: Silêncio Ensurdecedor
Batman criado por Bob Kane, com Bill Finger e Jerry Robinson


Horas antes, na mansão:

- O que significa tudo isso?

Bruce Wayne caminhou até uma câmara e respondeu, sem se virar:
- Meus pais foram assassinados na minha frente quando eu era criança. Jurei nunca mais...
- Não é disso que estou falando!
- Você queria toda a verdade, não é mesmo, Helena? Então eu vou contar toda a verdade. Desde o começo.

Saiu da câmara já com o uniforme do Cavaleiro das Trevas, porém, sem o capuz. Queria olhar nos olhos dela. A mentira já tinha ido longe demais, e não ia ter outra chance de fazer isso do jeito certo.

Se é que uma vida inteira de mentiras podia ser chamada de “jeito certo”.

- Eu entendo que você nunca tenha me contado. De verdade, eu entendo. E nunca cobrei nada de você, mesmo quando você descobriu a minha identidade. O que eu não entendo é por que você está me dizendo isso agora? O que aconteceu hoje, quem tentou me matar?

Ele se sentou, de frente para ela, enquanto Alfred deixava o café em cima de uma bandeja e se retirava.

- Meus pais foram assassinados, Helena. Por um criminoso comum, em um beco escuro, numa noite qualquer. Você já deve ter ouvido a história de como o “filho favorito de Gotham” se tornou um rebelde irresponsável, um pródigo, abalado pela tragédia que aconteceu com seus pais.
- Sim, eu...

“Eu sinto muito”.

- ... eu soube.
- Passei anos viajando pelo mundo. Treinando. Me preparando. Jurei que nunca mais deixaria outra tragédia como essa acontecer. Fui até os meus limites, mas não sabia exatamente o que fazer. Não tinha certeza... Como você cumpre uma promessa desse tipo? Eu voltei a Gotham. Precisava rever a cidade, ter contato de novo com a vida que me aguardava. A vida que aguardava Bruce Wayne. Acabei reencontrando uma antiga namorada. Sua mãe, Carmela Panessa.

Já se iam anos desde a última vez que Helena ouvia o nome da mãe, ou mesmo pensava nela. Talvez fosse sua única boa lembrança da infância. Sua mãe era doce, educada, responsável. Gostava de ler poesia e pintar, tocava piano e era uma excelente cozinheira – pelo menos é o que demonstrava nas raras vezes que ia à cozinha.

Mas Helena não esquecia seus olhos tristes, o semblante sempre voltado para o horizonte, como se toda sua felicidade tivesse ficado além de seu alcance. Enterrada no passado. Helena gostava quando a mãe lia poesia para ela, pois era a única maneira de vê-la sorrindo. Do ponto de vista de uma criança, poesia era a única coisa capaz de fazer uma mulher feliz.

Do ponto de vista de uma adulta, sua mãe jamais soube o que era ser feliz de verdade, o que era ser amada por alguém.

Ou talvez soubesse e tivesse perdido isso.

Talvez...

- Ela já estava noiva de Guido Bertinelli. Mesmo assim...
- Não é possível...
- Helena, entenda... Tudo que eu te disse até agora é o que realmente aconteceu. A partir daqui, começam as suposições. Sua mãe e eu viajamos juntos, para Nova York. Ela não queria um casamento arranjado pela máfia, estava disposta a largar tudo pra ficar comigo. E eu ainda não sabia que rumo dar pra minha vida. Achei que talvez ela pudesse estar ao meu lado, me ajudar. Mas a família dela era pequena dentro da máfia e contava muito com um casamento com alguém da família Bertinelli. Ao se casar com Guido, Carmella tornaria sua família respeitada. Ela era a nora perfeita para Vito Bertinelli. Porém, nem tudo foi como planejamos.

Helena apenas o encarava, sem demonstrar raiva ou tristeza. Não dizia nada, apenas ouvia.

E ele continuou:

Uma repórter chamada Amanda Perkins me seguiu e tirou fotos nossas em Manhattan. Elas foram publicadas em Gotham e o escândalo podia não só acabar com o casamento, o que seria péssimo para a família Panessa, como também arruinaria a reputação do noivo, Guido Bertinelli. E isso era algo que o patriarca da família não podia aceitar. Ele ameaçou Carmella, coagindo-a a se casar com Guido, ou as conseqüências seriam terríveis. Provavelmente, ele ameaçou o pai de Carmella e a mim. Eu continuei viajando pelo mundo, mas acompanhei de perto as notícias e paguei uma boa fortuna para Amanda desaparecer na Inglaterra, ou ela também seria ameaçada. Segui você tão perto quanto pude, segui sua carreira. Suas duas carreiras. Por isso quis que você desistisse, se você realmente fosse minha...

Neste instante, um alarme interrompeu Bruce Wayne. Os monitores de seu computador mostravam um intruso invadindo o terreno da mansão. Ele se levantou, vestiu o capuz e subiu as escadas. Sem se virar, ainda disse a Helena:

- Seu uniforme está na câmara. Coma alguma coisa, vamos atrás de respostas essa noite.

Helena acompanhou pelos monitores enquanto Batman emboscava o invasor, sem se mostrar. Não podia interrogá-lo – o Homem-Morcego, na mansão Wayne em plena luz do dia, ia suscitar mais perguntas do que respostas – mas se certificou de que ele fosse ter uma grande dor de cabeça quando a polícia chegasse para levá-lo.

Em seu depoimento, Wayne fez questão de deixar claro para o Comissário Gordon que aquele era o segundo atentado contra sua vida no dia. Ao buscar uma funcionária da Fundação Wayne, Helena Bertinelli, fora atacado em uma escola pública de Gotham.

Não era de todo verdade, mas serviria para não levantar suspeitas.

Helena ouviu o depoimento e a facilidade com que Bruce mentia.

Ouviu ele dizer dizer que Amanda Perkins tinha sido descoberta e morta em Londres e que todas as peças do quebra-cabeças estavam finalmente juntas. Que precisavam, investigar, como Batman e Caçadora.

Em nenhum momento o ouviu dizer qualquer coisa sobre ser o pai dela, sobre ter pensado na segurança dela, sobre ter amado sua mãe ou querer uma chance de se aproximar agora que tinha revelado a verdade.

Em troca, não disse nada.

Nenhuma palavra.


Agora:

Observaram até que Vito Bertinelli deixasse a catedral ao final da missa, sendo empurrado em sua cadeira de rodas por um segurança. Outros seguranças se encarregavam do perímetro, dos outros membros da família e dos puxa-sacos de sempre.

Entraram em suas limusines e partiram rumo à cobertura.

Batman apenas observava. Ficava confortável no silêncio.

A Caçadora, não. Mas tinha ficado sem palavras horas atrás.

- Venha. Precisamos...
- Espere.

Ele se deteve, surpreso por ouvir sua voz depois de tantas horas.

- O que foi?
- Eu... Você não consegue falar com sua voz normal? Agora que eu sei quem você é... Não há mais ninguém aqui. Eu...
- Desculpe. É força do hábito. Eu ainda...
- A gente precisa conversar.
- Eu sei. Me desculpe, eu sei. Venho tentando encontrar as palavras desde que soube que Amanda foi assassinada, mas... No final das contas, não disse nada do que havia planejado. Nada do que pensei que diria.
- Você é meu pai?

Formou-se um abismo entre os dois, um abismo feito de silêncio e rejeição, com duas crianças tristes em extremos opostos tentando alcançar uma a outra.

- Por favor, eu preciso saber. Você é meu pai?
- Eu nunca confirmei isso. Nunca fiz exames. É possível, mas eu não me importei realmente com exames. Não quis invadir sua vida, não quis que você tivesse a impressão de estar no meio de uma guerra por feudos entre... entre minha identidade civil e o clã Bertinelli.
- Como conseguiu se manter distante tanto tempo?
- Eu me encarreguei de que nunca te faltasse nada. Você sempre teve emprego e bom salário, sempre apareceram oportunidades para você. Eu me encarreguei de que você tivesse o bastante para desistir dessa vida e ser apenas Helena.
- Não, eu... Pensando nisso agora, eu sei que, de um jeito ou de outro, você sempre esteve por perto. O que eu quis dizer... Eu vi a facilidade com que você mentiu pra polícia, vi o que o Batman é capaz de fazer. E lembro perfeitamente como você me tratou, todas as vezes que teve a chance de dizer que eu “não estava à altura”. Você me humilhou tantas vezes, me rebaixou... Eu fiz uma escolha na minha vida, fiz isso pela minha mãe. Não sei se você é mesmo meu pai, e também não me interessa. Mas não somos tão diferentes assim. Como pôde me julgar por ter feito exatamente o que você fez? Como você conseguiu viver com isso todos esses anos? Eu imagino o esforço que você deve ter feito pra me contar a verdade, porque eu não vejo a verdade em você. Você tenta controlar tudo, manipular tudo. Eu sempre achei que meu pai fosse um monstro, um mafioso e agora... Agora eu não sei o que pensar. Não sei o que estou fazendo com esse uniforme... Essa roupa idiota. Deus do céu – ela disse, enquanto se sentava no telhado da catedral – Eu sou igual a você.

Fazia frio em Gotham naquela noite. Muito frio.

Batman se sentou ao lado dela, completamente desajeitado. Qualquer um que visse a cena diria que não se tratava do verdadeiro Cavaleiro das Trevas. E, talvez, realmente fosse algo... diferente.

- Você a amava?
- Sim.
- Sente falta dela?
- Sim. Sim, eu... Eu sinto falta dela.
- Eu sou parecida com ela?
- Em alguns pontos. Fisicamente, é bastante parecida. Mas ela era... pacata.
- Eu sempre me perguntei como eu poderia ser filha dela, mas lembro tão pouco. E hoje em dia, sinceramente, nem sei se lembro direito. Acho que, com o tempo, a nossa mente começa a... Desculpe, eu estou divagando.
- Tudo bem.
- Não. Não está tudo bem. Eu nem sei porque estou aqui, sentada, conversando com você. Eu não sei como te chamar e estou me esforçando pra não dizer nada que possa “comprometer a identidade”, porque tenho certeza de que você vai me repreender, isso se não me der uma surra, porque agora eu não sei que tipo de relacionamento você vai ter comigo, nem o que você espera de mim, se é que espera alguma coisa já que você me falou que não tem certeza, apenas suspeita e colocou tudo de maneira tão metódica, como um perito examinando um cadáver e é assim que estou me sentindo, morta, numa mesa, enquanto alguém mexe na minha cabeça e tira coisas que nem eu sabia que estavam lá...

Lá embaixo, o trânsito em Gotham era forte, havia muitas pessoas nas ruas e, no alto, o vento urrava com a força de uma tempestade vindoura.

Mesmo assim, o silêncio entre os dois era sufocante.

- Você é meu pai, Bruce?
- Eu não sei. Mas podemos descobrir isso juntos, se você quiser.
- Tipo, fazer exames?
- Sim.
- E depois? Depois Bruce Wayne vai assumir que tem uma filha? Vou morar com você? Alguma vez você tratou Asa Noturna ou o Robin da maneira que me trata?
- Eu não tenho todas as respostas, Helena. E também não posso responder sozinho.
- O que você espera que eu faça?
- Vito Bertinelli pode ter matado Amanda Perkins e depois a nós. Precisamos dar um fim nisso.
- Pra todos os efeitos, ele é meu avô.
- Perkins colocou minhas fotos com sua mãe no jornal. Ele soube do escândalo e tirou o assassino de meus pais da prisão para me matar. Eu tive o assassino de meus pais em minhas mãos, Helena.
- E o que você fez?
- Eu escolhi não matar.
- Eu não sei mais se estou viva. Eu não sei quem eu sou.

Ele se levantou e estendeu a mão para ela:

- Você é a Caçadora. Precisamos impedir que mais gente morra.

Ela se levantou, sem pensar exatamente no que estava fazendo. Mas aquelas palavras fizeram muito sentido para ela. “Você é a Caçadora”. Precisava se apegar a isso. Precisava ficar focada no objetivo, precisava descobrir se Amanda Perkins fora assassinada por sua causa e se havia mais gente na lista de Vito Bertinelli.

Precisava voltar a fazer a única coisa que a satisfazia.

Precisava lutar.

Foram até a cobertura de Vito Bertinellis. Certamente, contava com um eficiente sistema de segurança, sem falar nos guarda-costas. Batman já tinha todos os dados. Sabia quantas pessoas moravam na cobertura, quem estaria em qual cômodo e a que horas. Esperaram até que o momento fosse propício – troca de turno dos seguranças, todos dormindo. Entraram no quarto de Vito Bertinelli.

O outrora chefão da máfia era agora um velho alquebrado, preso a uma cadeira de rodas, mas ainda com o prestígio que o controle da família lhe dava. Os negócios não andavam bem, mas era o suficiente pra manter o alto padrão de vida de seus filhos e netos.

Bom, não de todos os netos.

Havia uma que ele se recusara a amar ou dar um centavo sequer, desde que a mãe morrera.

A rebelde.

Tão parecida com a mãe.

A maldita.

Ainda se lembrava da satisfação que sentiu quando recebeu a notícia de que ela fora morta por uma “família rival”. Já tinha perdido o filho, não daria um centavo para a prostituta.

Quanto à pequena bastarda, em breve seria um problema a menos.

Nem que, para isso, tivesse de tomar medidas drásticas.

Foi quando sentiu uma corrente de ar gelada entrando no quarto abriu os olhos e uma mão enluvada cobriu sua boca.

- Sei o que está pensando, Bertinelli. “Como ele entrou aqui? O que ele quer?” Respondendo à primeira pergunta, não culpe seus seguranças. Eu tenho acesso a lugares que eles não têm. Quanto à segunda pergunta, é bem simples. Uma pessoa foi morta, outras duas sofreram atentados. Não me importo se você não tem nada a perder, se você está quase morto e não está preocupado em ir preso. Mas com aquelas pessoas eu me preocupo. E garanto que posso fazer seus últimos dias serem um inferno de dor e perda se você não cooperar comigo.

A Caçadora ficou surpresa com as palavras. Seus métodos eram violentos, mas ver o Batman ameaçar um homem velho, depois de tantos sermões que ouvira dele, soava muito hipócrita. Mas então lembrou-se de quem era aquele “velho”, como ele se referia a sua mãe e o que ele era capaz de fazer por dinheiro e poder.

Porém, antes que tivesse a chance de ajudar no interrogatório, foram interrompidos por uma voz nova em Gotham:

- Ora, ora, ora... Ganho mal, mas me divirto.

Batman e Caçadora não tiveram tempo para se esquivar ou se defender do ataque. Uma gaveta foi arremessada contra os dois.

O impacto não foi fatal, mas doeu bastante.

Ele não queria que fosse fatal. Ele queria se divertir primeiro.

Se quisesse matá-los, os dois já estariam mortos.

Afinal, o Mercenário nunca erra o alvo.



Continua!

Posted on Monday, October 05 @ 21:06:06 BRT by Raul_Kuk
 
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