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 Justiceiro 68 - O Homem de 60 Milhões de Dólares: CÃES DE GUERRA
JusticeiroO cerco se fecha ao redor de Frank Castle. A fortuna que o acusam de ter roubado atrai a atenção de gente muito poderosa. Enquanto isso, conhecemos mais sobre os planos do Exterminador.

Março / 2009


JUSTICEIRO
Capítulo 68

CÃES DE GUERRA
O Homem de 60 Milhões de Dólares Parte III

Por Henrique JB



— 1, 2, 3, 4!

Manhã chuvosa, gelada, o sol ainda despontando tímido.

— 1, 2, 3, 4 !! — responderam numa só voz.

A vegetação coberta de orvalho, o ar permeado de névoa úmida.

— 4, 3, 2, 1!

O líder puxava o coro. Os soldados repetiram em uníssono.

— 4, 3, 2, 1 !!

Uniformes encharcados, eles carregavam pesadas mochilas com equipamento completo.

— Tortura é uma coisa muito fácil de fazer...

A lama penetrava no tecido, congelava as entranhas. O oficial marcava a cadência.

— TORTURA É UMA COISA MUITO FÁCIL DE FAZER...

Arame farpado roçando, barrigas mergulhadas no chão imundo, a sujeira tomando boca, nariz.

— ...pega o inimigo e maltrata até morrer!

Rastejando ligeiro sob os fios de aço, as pontas abriam lanhos em roupa e pele.

— ...PEGA O INIMIGO E MALTRATA ATÉ MORRER!!

Parecia que a própria terra os tragava, os queria devorar.

— Somos os melhores, somos fortes...

O pior era a exaustão. Músculos não respondiam, o cérebro sem raciocinar direito.

— SOMOS OS MELHORES, SOMOS FORTES...

Os olhos só desejavam fechar. Um minuto, um instante de descanso, eles clamavam.

— ...o preço da covardia é a morte!

Para espantar a tentação, balas traçantes voavam centímetros acima de suas cabeças.

— ...O PREÇO DA COVARDIA É A MORTE!!

E havia os gritos. Os oficiais disparavam palavras de ordem no mesmo ritmo dos projéteis.

— BAIXA A CABEÇA! OLHA PRA FRENTE! CUIDADO COM O COMPANHEIRO! VAI!

Eles exigiam o máximo dos comandados e, quando estes alcançavam o limite das forças, cobravam ainda mais de seus corpos extenuados.

— QUERO VER RAÇA! QUERO VER SANGUE! MAIS GARRA! MAIS RÁPIDO! MAIS FORTE!!

Ao chegarem à extremidade do fosso, os soldados se ergueram trêmulos. O obstáculo seguinte era uma rede de cordas, disposta sobre uma trave larga. Cada um tinha que escalar a grade o mais depressa possível. Do outro lado, afundavam até os joelhos numa vala pegajosa.

— Andem, suas pilhas de merda ambulantes! Não temos o dia todo! Vamos! Vamos!

Adiante, uma parede de madeira bloqueava o caminho. A maneira de passar era saltar através de uma janela no centro. Muitos já não tinham energia para a manobra.

— Vocês pulam feito bichas! Que foi? Perderam a força nas pernas de tanto dar a bunda?

Depois os atletas subiram o barranco íngreme apoiando-se num cabo-guia. O cordão estourava a pele das mãos cheias de bolhas. Os companheiros mais lentos atrasavam quem vinha atrás, exigindo um esforço maior para que não prejudicassem o grupo inteiro.

— Vocês ficam de madrugada na internet vendo sacanagem e depois não conseguem subir uma droga de ladeira de manhã? Aposto que conseguiriam se tivesse um travesti lá em cima, não é? Seus bostas, do que são feitos? Vocês são uma vergonha!! Mexam essas banhas!

Chegando ao topo, eles correram através de uma cortina de gás lacrimogêneo. A maioria perdeu o rumo ou parou, tossindo na fumaça. Os olhos, cheios d’água, não enxergavam adiante.

— Isso aqui não é a sauna gay, miseráveis! Nada de descanso! Desse jeito a maldita guerra vai ter acabado quando vocês chegarem no pé do morro. Arrastem essas carcaças lá pra baixo!!

Os homens desceram a encosta, às vezes escorregando. Alguns rolaram no barro.

— Levanta!! Quebrou a unha, viado? Foda-se! De pé, maldito chupa-rola do inferno, vai logo!

O pelotão seguiu a estrada de terra em marcha forçada. Tinham ainda muito chão a percorrer.

— EM FRENTE!! Sem moleza! Quem ficar pra trás, eu juro que cago dentro da boca e ainda mando mastigar! Bando de desgraçados preguiçosos, VAMOS!!

O líder e seu segundo-em-comando não acompanharam os outros. Um Land Rover os aguardava sob as árvores. Ao volante, um homem mais velho, vestindo uniforme cáqui. Os dois embarcaram e o motorista pegou um atalho.

— E aí, o que achou? — indagou Floyd Lawton, passando o cantil para o chefe.

— Bom. — Slade Wilson respondeu e tomou um gole. — Evoluíram bastante desde a última vez.

— É... Eles não passavam de um bando de fanfarrões quando chegaram.
— retrucou o suboficial, mais conhecido como Pistoleiro. — Tinham lá suas vantagens, é claro. Não dá pra subestimar esses caras. Mas falando em termos militares, não passavam de amadores com superpoderes.

O Exterminador passou o braço no queixo, limpando a água que escorrera. Wintergreen se ocupava em desviar dos buracos enquanto o carro trepidava.

— Desde que essa equipe chegou do front, só o que fazemos é treinar e treinar. Armamento, táticas de assalto, combate urbano, defesa pessoal... O maldito pacote completo. — Lawton falou acima do barulho do motor. — Slade... Você sabe melhor que eu, esses tipos não podem ficar muito tempo parados. Têm que canalizar a raiva de algum jeito. Senão daqui a pouco começam a brigar por qualquer coisa. Eles precisam de uma guerra. Vamos levar os caras pra Nova Iorque. O Justiceiro é a oportunidade perfeita.

— Não.

— Ora, vamos! Você lembra, os homens estavam em ponto de bala, aí quando demos a ordem foi só apontar pro alvo e os caras pareciam pitbulls saindo do canil.
— o Pistoleiro riu. — Afeganistão, Iraque, Coréia, Mianmar... Na Latvéria, todo mundo se borrava de medo do Doutor Destino. Agora eles têm pesadelos com a gente. Hahah! Por que não fazer isso de novo?

— A situação é diferente.
— Slade interrompeu. — Estou negociando com o presidente em pessoa. Se fizer o movimento certo, posso fazer de nós homens ricos...

— Ora, não tem melhor jeito de impressionar Luthor. Ele conhece nosso estilo. Os serviços que fizemos... Não é qualquer um com estômago praquilo.
— o Pistoleiro instigou. — Só que antes, tinha aquela puta da Waller mandando em tudo. Agora estamos por conta própria. Precisamos mostrar pra ele a diferença, Slade! Vamos pôr a cabeça de Frank Castle na mesa do homem, e aposto que ele te dá um cheque em branco. Ele não é burro.

— Não, não é. Mas você fala como se fosse um.
— o Exterminador se voltou para Lawton, dedo em riste. — Esses caras são malditos cães de guerra! Se eu soltar a coleira, vai haver mortes de civis.

— Você não parecia tão preocupado assim antes.
— o Pistoleiro ironizou. — Mas estamos em solo americano agora, é isso? Heh! Não conhecia esse seu lado patriótico.

— Tem muita diferença entre detonar um bunker do Doutor Destino embaixo de uma escola pobre, numa aldeia esquecida do Leste Europeu, e metralhar o carro do Justiceiro em plena Times Square.

— Está certo. Está certo.
— Floyd Lawton meneou a cabeça, exagerado. — Agora me diz, tem mais coisa que você ainda não me contou, né?

Slade achou graça. No fundo, gostava do humor sarcástico dele. O Pistoleiro era um matador traiçoeiro, impiedoso, mortífero. E um canalha completo também. Contudo Wilson se sentia tranqüilo, pois ele não representava ameaça para aquele que já foi chamado de Assassino Imortal. Os dois trabalhavam juntos há alguns anos no projeto Esquadrão Suicida implementado por Amanda Waller. Nesse tempo ele aprendeu a tirar proveito das habilidades impressionantes de Lawton. O Pistoleiro se revelava um bom soldado, desde que tivesse um líder forte o bastante para impor respeito.

No entanto, não poderiam ser considerados amigos. Esse tipo de coisa raramente acontecia nesse ramo. No caso do Exterminador, somente um homem ainda vivo merecia tal consideração. O homem estava ali, no banco da frente, assim como estivera em várias outras campanhas.

William Randolph Wintergreen era seu aliado de longa data. Natural de Oxford, Inglaterra, ele atuava como agente de informações do MI-5 na África quando conheceu o então tenente Wilson. Mais tarde, os dois se reencontraram durante o conflito do Vietnã. Quando Slade decidiu entrar na clandestinidade, atuando como Exterminador, o inglês o acompanhou.

— Ok, vou te contar uma novidade, Lawton. — Wilson segredou. — Amanda está agora na Latvéria. Luthor mandou ela cuidar pessoalmente da retirada da equipe que ficou lá.

— Como é?? Depois de toda a ralação, eles vão pôr tudo a perder?
— o Pistoleiro disse, incrédulo.

— O presidente está fazendo uma saída estratégica, claro. O massacre que o Justiceiro fez em Sin City expôs o esquema de financiamento da nossa guerrinha suja. — Wilson lembrou. — Felizmente, até agora ninguém importante ligou uma coisa à outra. A Liga deve estar em alguma missão, não ouvi mais falar deles. E os Vingadores... Bem, você sabe, os Vingadores já eram.

— É. Eles se foderam bonito mesmo. Deu até pena...
— o Pistoleiro fez um silêncio reverente, para depois completar. — Quer saber? Eu adorei! Hahah. Aquele robô merecia uma estátua na praça por arregaçar aqueles merdas. — ele zombou.

— É... Mas tem um monte de outros desgraçados de capa ainda vivos por aí. Se não nos cuidarmos, alguém pode resolver investigar. Então por enquanto Luthor suspendeu a operação. Vamos cobrir os rastros, deixar a poeira assentar. As células do Esquadrão Suicida na Latvéria vão ficar dormentes até receberem ordem pra reativar. É essa a manobra que Waller foi organizar lá.

— E o Justiceiro?

— Ele até agora é o único que sabe sobre o embarque do dinheiro.

— E também foi quem afanou os 60 milhões de dólares que iam bancar as operações no exterior...
— Lawton escancarou uma risada de cumplicidade.

— Claro. O dinheiro de Luthor... — Wilson zombou, e nesse momento até Wintergreen se voltou para rir com os dois mercenários.

O Land Rover estacionou na pista lamacenta. O Exterminador admirou a vastidão de sua propriedade. Era um vale sombrio e inóspito, árvores desfolhadas, montanhas íngremes, paredões de rocha lisa, uma ravina profunda, riachos. A paisagem, natural como ele encontrara. Fizera poucas intervenções, apenas uma casa grande para servir de sede, alguns alojamentos, abrigos na mata, esconderijos.

O que realmente o orgulhava era a estrada de terra percorrendo toda a área, ziguezagueando no relevo selvagem. Uma desafiadora trilha de obstáculos com 32 quilômetros de extensão! Tratava-se de percurso semelhante ao da Academia Nacional do FBI, em Quantico, Virginia — famoso pelo nome de Estrada dos Tijolos Amarelos — onde os alunos graduados no curso de formação de agente federal põem à prova sua resistência e trabalho em equipe.

Da mesma maneira que copiara o design do campo do FBI, Wilson usou várias referências ao formular seu programa de treinamento. O método procurava moldar não apenas o corpo, mas também a mente dos participantes. Ele incluía técnicas dos Fuzileiros Navais, Swat e até da Al Qaeda.

Atacar de surpresa. Rápido e impiedoso.

Usar força total para esmagar o inimigo.

Somos indivíduos que transcendem a condição humana.

Pessoas que dão o passo seguinte na escala evolutiva.

Gigantes que caminham sobre a Terra.
[1]

Slade tinha uma teoria: supercriminosos, em geral, são mais fracos que os heróis. O motivo seria uma certa falta de disciplina daqueles. Wilson achava que as habilidades sobre-humanas muitas vezes funcionavam como “muleta”, tornando indolente quem as possuía. Por isso ele implementou uma jornada rigorosa para exigir o potencial máximo de seus recrutas — e o que era mais importante, o uso de superpoderes ficava proibido.

Neste mundo você é a presa ou o predador.

Sobrevivência é o que importa.

Forte é quem tem coragem de fazer o que tem que ser feito.

Não há perdão para a covardia.

O preço da covardia é a morte.
[2]

Foi o condicionamento radical que fez sua guerrilha no exterior ser tão bem sucedida. Sua filosofia era de que quanto mais o odiassem, mais aprenderiam. Foi assim que o Homem-Areia, a Irmandade da Serpente, e tantos outros, foram transformados em monstros.

O terreno custara relativamente barato, já que não servia a qualquer atividade produtiva. O investimento em material e equipamento, por outro lado, foi bem oneroso. Mas isso não o preocupava. A verba desviada do projeto Esquadrão Suicida era mais que suficiente.

O Exterminador podia ter detido Castle em Sin City. Sabia que, se seguisse Jason Rand, o Justiceiro apareceria. Ao invés disso ele preferiu gastar tempo com pistas falsas, até que Frank tivesse causado bastante estrago. Slade aproveitou o caos para matar os guardas e roubar o barco que levava os 60 milhões de dólares.

Foi por esta razão que deixara o Justiceiro viver. Para levar a culpa. Um perfeito bode expiatório.

Agora ele tinha condições de financiar seu próprio Esquadrão Suicida. Venderia os serviços ao mesmo homem de quem havia roubado... e tomaria o lugar de Amanda Waller, inevitavelmente provocando a execução dela. Wilson respirou fundo, apreciando a sensação de vitória.

O sol estava mais forte agora. O ar, abafado e úmido. Eles conversaram até surgir uma nuvem de poeira morro abaixo. Os soldados estavam chegando.

— Vou acabar com Castle. — o líder assegurou para Lawton e Wintergreen. — Mas o melhor é que não vou chamar a atenção pra Luthor ou pra nós. Quero tirar o desgraçado das ruas de um jeito limpo. De um jeito que ninguém vai questionar.

— Ok. Está certo, Wilson. Nossos homens continuam treinando então, até nova ordem.
— o Pistoleiro se rendeu aos argumentos do chefe. — Quer dizer então que Waller está lá fora comandando o pessoal... Em campo! Quem diria, hein? Eu bem que gostaria de ver aquela gorda escrota sair do ar condicionado. Imagine ela metendo o salto alto na lama das montanhas, enquanto os soldados de Von Doom enchem o rabo dela de chumbo...

— Essa é a graça, Lawton. Enquanto ela está naquela merda de país, juntando os cacos da operação... eu estou na América roubando o que ela levou a vida inteira pra construir.


A gargalhada de Floyd Lawton disse tudo.

O trio assistiu ao pelotão que se aproximava passo a passo do automóvel. Cambaleante. Extenuado. Coberto por uma camada de lama seca e pó.

Nos rostos contorcidos, brilhou a esperança ao avistar o veículo que representava o fim da tortuosa jornada. Sorridente, o Pistoleiro ergueu para eles um frasco de bebida esportiva — uma revigorante promessa de reposição dos líquidos e sais minerais perdidos na corrida.

Quando chegaram perto, o Exterminador bateu no ombro de Wintergreen. O motorista deu partida e o Land Rover deixou para trás os atônitos membros do novo Esquadrão Suicida.

O carro parou um quilômetro adiante. Lawton e Wilson convidaram os pobres coitados a embarcar. O veículo se afastou de novo. Eles repetiram isso por mais duas horas. Foi uma manhã produtiva.


O som reverberava na estrutura metálica da casa de shows. Na verdade não se tratava bem de uma casa de shows, era pouco mais que um galpão cercado. Contudo, havia muita história impregnada naquelas paredes. O Flying Circus era o mais célebre ponto de encontro da cena alternativa. Várias bandas de rock passaram pelo tradicional palco antes de fazerem sucesso.

A pista estava cheia na noite dedicada a músicos iniciantes. Um clarão se abriu no meio do público, dando espaço para garotos num misto de dança e agressão. Cabeças, punhos, tênis e coturnos se agitavam em harmonia. Quem tocava era o grupo Zombie from the Woods com sua guitarra nervosa, letras dadaístas e humor nonsense.

As luzes foram acesas para o intervalo. Um rapaz se destacou entre os demais. Corpo atarracado, bruto. Tinha os cabelos arrepiados pingando suor. Estava satisfeito pela descarga de adrenalina. A camiseta branca ostentava uma chamativa marca de sola de sapato impressa no peito. Parecia saído de uma batalha. O jovem se uniu aos amigos na área externa. Conversaram, beberam e fumaram aguardando o show do Gaseous Gangrene.

— Rick! Aê, Rick!

— Quié, porra?

— Tem um maluco ali te chamando.


Ele foi até a grade conferir. Um homem o encarava nas sombras do lado de fora. Richard percebeu quem era. E hesitou. Mas foi só por um momento. Nem precisava que o outro dissesse nada. O rapaz sabia que, se não saísse, o sujeito viria buscá-lo. E não seria nada bom ser visto pelos outros com aquele cara.

— Aê galera, dá um tempo que eu já volto.

— Qualé, Big R? Que que tá pegando?

— Fica na tua, ô prego! Vou armar uma parada aê. Fui!


Rick passou pela roleta e ganhou a rua. Nas calçadas, toda espécie de gente circulava entre barracas de cachorro-quente e churrasco, camelôs vendendo cerveja, mendigos, flanelinhas, menores de rua, prostitutas, travestis, freqüentadores dos bares e restaurantes da área.

— Vai até o muro do estacionamento. — ordenou uma voz atrás dele.

O jovem obedeceu. Andaram calados, mantendo distância regular entre si, para longe da multidão. O homem fez Rick parar sob um poste com a lâmpada providencialmente quebrada. O rapaz se voltou. Os faróis de um carro projetaram uma sombra alongada na parede branca, fazendo o homem parecer um gigante de trevas, se expandindo até engolir Richard.

— E aê, sr. J? Qual é a parada dessa vez? — Big R tentou disfarçar a ansiedade.

O taciturno não respondeu. Apenas fitou o rapaz com olhar inquisidor. Depois virou a cabeça para um lado e para o outro, sondando a área.

— O que andam dizendo nas ruas? — finalmente murmurou, dando um passo à frente. A luz mortiça da lua revelou o rosto de Frank Castle.

— Se liga... A barra pesou pro teu lado, valeu? Me bateram um papo de que... de que tu embolsou uma grana preta do Rand e...

— Isso eu já sei. Quero saber quem está atrás de mim.
— o Justiceiro exigiu.

— Todo mundo com dois braços, duas pernas e um trabuco. — Richard levou a mão cautelosamente ao bolso, atrás do maço de cigarros. — Tu virou uma porra de celebridade, cara.

— Malandros de rua? Humpf! Ontem três voltaram em sacos pretos. Mato essa cambada todo dia. Não são problema. O que eu quero saber é se tem algum dos grandes na minha pista.

— Ah, então é isso, né?
— Rick acendeu o cigarro, a chama do fósforo banhando seu rosto de luz amarela. — Escutei alguma coisa sobre aquele viado russo...

— Homem-púrpura.

— É isso aí. Tremendo fura-olho... Mas é um puta duma bichona, andando por aí todo de roxo. Claro que ninguém manda essa letra pra ele, né? O cara é pirado, tu sabe. Tipo, ele te manda pular na frente do trem e tu pula. Simples assim. E ele tá na tua cola, sr. J.

— Quem mais?

— O Cabeça de Martelo agitou a galera pra ficar de butuca ligada. Ele tá bem a fim da grana pra tomar de vez o lugar do Rei. E o Coruja tá na área juntando uns cara pra correr atrás. O Mister Hyde e o Laser Vivo tão com ele. E tem também os tais Executores... É isso que tô sabendo. Juro.


Castle analisou o rapaz de cima a baixo. Ele segurou-lhe os pulsos e observou. As marcas de picada eram antigas. Frank não viu coceiras, tiques nervosos, nenhum sinal típico de viciados.

— Parei mesmo, sr. J. É papo reto, na moral! Agora a coisa mais pesada que eu pego é cerveja.

O vigilante refletiu um minuto. Ele fez uma anotação num papel, entregando-o ao rapaz junto com um maço de dinheiro.

— Que que é isso?

— Meu número de celular.
— Frank retrucou. — Pro caso de você descobrir alguma coisa nova.

— Aê, valeu pela grana, véio... Quer dizer, sr. J.

— E seu pai?

— Câncer.
— Richard murmurou.

Os dois permaneceram num silêncio que, para o garoto, pareceu constrangedor.

— É bom ele continuar longe de problemas. — o Justiceiro avisou. — Senão... Eu sei onde ele mora.

Big R concordou com a cabeça, meio por obediência, meio espantado por o vigilante ameaçar um homem que está morrendo.

— O mesmo vale pra você, garoto. — e Frank desapareceu na noite.

Rick, assim como seu pai, era um exemplar da variada gama de informantes que servia ao Justiceiro. Geralmente, eram pessoas que cometeram crimes de menor periculosidade. Ele avaliava que estes tipos eram mais úteis se permanecessem vivos. Desta forma, o Executor de Assassinos podia recolher os dados necessários para chegar a seus verdadeiros alvos — mafiosos, traficantes, matadores, sociopatas, monstros que punham em perigo vidas inocentes.

Castle dispunha de muitas fontes. E todas elas confirmavam a impressão de que o cerco vinha se fechando. Ele já sabia que Georges Batroc, um mercenário francês que já enfrentou o Capitão América, foi detido pela alfândega quando chegava no aeroporto JFK. O Tubarão-Tigre foi visto emergindo do rio Hudson. Rino estava à solta, depois de sua fuga da Balsa. Ele escutara relatos de que Ceifador, Navalha e Tarântula agiam em Nova Iorque. Havia ainda outros. Muita atividade metahumana.

Tudo isso poderia se tratar de coincidência, não fosse o fato de o submundo acreditar que Frank tinha 60 milhões de dólares em mãos.

Ele precisava se preparar. Essa era a segunda leva de assassinos no seu encalço. E ele sabia que o responsável por toda a trama, o Exterminador, nem aparecera ainda. Porém, Castle não tinha dúvidas de que ele viria... e aí seria GUERRA!


— Acredita em vodu?

— Como é que é?
— Slade Wilson questionou.

— Você ouviu, tenente. — o outro rebateu.

Wilson fitou o mercenário que o encarava do outro lado da mesa. O homem estava relaxado, estendido na cadeira que balançava apoiada nas pernas traseiras. Seus olhos emergiam e desapareciam por trás das garrafas de uísque barato e de aguardente Tic-Tac. A imagem de sua face, distorcida através do vidro transparente, fazia-o parecer terrivelmente desfigurado. A ilusão de ótica, no entanto, não chegava a ser tão bizarra quanto própria a realidade nua e crua.

Roald Bushman tinha uma tatuagem. Um grande desenho branco preenchia a pele negra, começando na testa, mais largo ao redor dos olhos e maçãs do rosto, afinando rente à boca até o queixo. Era o que ele chamava de Cabeça da Morte. Sua intenção óbvia era apavorar o inimigo — no que ele era muito bem sucedido. Mas a horrenda figura que o mercenário via no espelho todas as manhãs ainda não fora capaz de satisfazer sua vaidade mórbida. Bushman gastou uma pequena fortuna com cirurgiões dentistas, implantando próteses de aço no lugar dos dentes naturais. O resultado foi uma tétrica máscara definitiva de horror.

Este era o mais novo integrante do esquadrão comandado por Slade. “Novo” não seria um termo adequado para se referir a ele. Bushman era um veterano das guerras pós-coloniais. Um homem muito forte e astuto, que tinha mais experiência, mais conhecimento da cultura e do terreno africano, que o então jovem oficial. E era mais cruel também.

Com esse currículo, o mercenário seria o candidato perfeito para tomar o lugar de Wilson. Ambos sabiam disso. Mas o tenente não se sentia ameaçado. De fato, atualmente nada o ameaçava. Desde que sobrevivera ao ataque que matou o líder Jean Marie Baptiste, alguma coisa mudou nele. Slade se sentia cada vez mais forte, mais rápido, mais confiante. Invencível.

Outro dos homens sentados à mesa era Ulysses Klaw — O Belga[3]. Klaw era o interlocutor das forças mercenárias, o homem que negociava com a junta militar no governo. E, pelo menos nominalmente, Wilson era seu sócio na ofensiva zairense. Sob o comando de Slade, os soldados de aluguel conquistaram vitórias importantes ao longo das últimas cinco semanas. No entanto, o líder das tropas rebeldes permanecia incólume. Encontrá-lo na mata impenetrável, sem recursos de reconhecimento e transporte aéreo, parecia tarefa impossível.

Foi aí que entrou Bushman. Seu bando de mercenários foi contratado pelo Belga para achar o quartel-general da oposição. A tática usada foi a mesma que fizera sua fama no Sudão — o medo. A guerra que Slade Wilson conhecia era violenta, mas sua mente ainda era a de um homem que crescera na civilização, vindo de uma família abastada. Bushman, por sua vez, nascera tão miserável que, diziam, na infância chegara a comer carne humana para sobreviver. Verdade ou não, seu procedimento em batalha reforçava tal lenda, que se espalhou pelo sertão do país. Seqüestro. Tortura. Empalação. Esquartejamento. Crucificação. Barbárie. Ele não tardou a obter a localização do chefe rebelde.

O ataque organizado por Slade foi um sucesso. As forças governistas debelaram a guerrilha. Era a isso que os homens brindavam esta noite.

— Não! Claro que não acredito nessas besteiras. — o tenente Wilson asseverou.

Klaw xingou o garçom. O funcionário veio prontamente atendê-lo com uma porção de peixe de água doce. Os mercenários devoraram o tira-gosto. Mais bebida chegou. O bar, um estabelecimento precário freqüentado por camponeses, malandros, paramilitares e prostitutas, estava cheio. Pessoas dançavam com a música ao vivo. A conversa seguia animada. Ninguém prestou atenção ao estranho assunto que surgira, do nada, entre Roald Bushman e Slade Wilson.

— Jean Marie Baptiste... Ele acreditava. — o Cabeça da Morte sibilou, num tom distraído.

— Baptiste era um homem do povo. Um homem simples. Não é estranho que tivesse superstições como todos os outros. — Wilson lembrou.

— Um ótimo soldado, pelo que me falaram. — se meteu na conversa um mercenário do grupo de Bushman, o homem chamado Marc Spector [4].

— O melhor. O melhor filho da terra com quem já trabalhei, sem dúvida.

— Um brinde a isso.
— os soldados de aluguel tocaram os minúsculos copos de cachaça, e viraram-nos goela abaixo.

Àquela altura, o tenente não saberia dizer se era o álcool subindo-lhe à cabeça, mas estava ficando irritado. Não gostava nada de Bushman. Seria interessante para o Belga substituir Wilson e enterrar a verdade sobre a morte de Baptiste. Porém o comandante se encontrava satisfeito com a vitória, e com o vindouro pagamento do governo. Não parecia alguém preocupado em derrubar o sócio. Não hoje. A mulher sentada no colo de Klaw, o decote na altura do rosto dele, o manteria de bom humor.

Slade compreendeu finalmente o que o incomodava. Era na verdade algo bastante óbvio. A horrenda tatuagem de Bushman, que despertava uma inquietação... um temor psicológico... sobrenatural.

A marca da caveira.

— E aquele moleque ontem, hein? — o negro continuou, falando alto por causa da música. — O puto veio do nada, rifle no automático, descarregou em vocês... Achei que você tava morto.

— Não era tão sério quanto pareceu na hora.
— Wilson minimizou.

— Que isso! Foi sangue pra todo lado. Você caiu no meio duma poça vermelha! — Spector pousou o copo e se adiantou, estendendo a mão ao peito do outro.

— Nada, a bala só passou de raspão. Esquece. — o tenente desconversou. — Foi sorte.

— Muita sorte...
— Roald brindou à saúde do tenente.

Slade vinha observando uma mulher que dançava. Ela tinha cabelos amarrados em coque, pescoço longilíneo, pele suada brilhando com à luz do bar. As coxas grossas se insinuavam para fora do vestido branco curto. Sua beleza era rústica, um tanto indomada.

— Me contaram uma história de que Jean Marie tinha o corpo fechado... — o negro continuou. — Como é que se diz isso na sua língua? Você entende? Corpo fechado?

Wilson fez menção de levantar. Ao ficar de pé, sentiu o efeito da aguardente. Seu senso de equilíbrio se revelara algo fenomenal nos últimos dias. Mas depois de tantas batalhas finalmente a guerra terminara e hoje ele ia se embebedar enquanto agüentasse.

— Dizem que Baptiste era um poderoso houngan, praticava rituais secretos... artes antigas. — Bushman insistiu, mas o ruído no bar era intenso. — Magia negra.

Slade talvez não tivesse escutado. Ele cruzou os olhos com a africana. A mulher transpareceu um sorriso sutil que poderia não ser nada, mas também podia ser alguma coisa.

O oficial acenou com a cabeça para os companheiros, apanhou uma garrafa de Tic-Tac e deixou-os.

Marc Spector e Ulysses Klaw discutiam calorosamente sobre política local. Bushman, por sua vez, ficou quieto, a espreitar Wilson que, desajeitado, simulava uma dança com a jovem negra.

— Mentiroso... — ele sussurrou entre dentes de aço, farejando ao redor. E sorriu.

Foi difícil encaixar a chave na fechadura. Ambos tropeçaram, quase levando a porta do quarto abaixo. Ficaram ali mesmo, no chão da entrada. Os lábios da mulher eram carnudos, alucinantes. Suas unhas passearam explorando o relevo firme do oficial, e abriram a camisa dele, arrebentando botões. O americano experimentou o tempero africano do pescoço, do busto. Os dois falavam bobagens e riam.

Slade puxou a garota para a cama. Ela apanhou a garrafa e a pôs no criado-mudo. De repente, empurrou o homem. Deitado, o tenente a fitou, divertido com a iniciativa dela. A negra o mediu de cima a baixo, como quem avalia uma presa. Depois bebeu um bom gole da aguardente. Wilson gostava daquela atitude. A garota se abaixou, oferecendo uma visão generosa dos seios perfeitos e, olhos nos olhos, arriou-lhe as calças devagar. Ela ergueu a barra do vestido e subiu no colchão, vindo enlaçar a cintura do mercenário com as pernas. Os dois se beijaram e Slade saboreou a cachaça morna que ela trazia na boca para ofertar-lhe.

O instinto animal os guiou. Montada nele, a mulher de branco não tinha pudor em usá-lo. Wilson afundava a cada nova estocada. Estava sem ação, imobilizado por desejo, satisfação, devaneio. Os gritos davam a justa medida do êxtase em que ambos se perdiam.

Numa pausa, a negra alcançou a bebida. Ela recomeçou o movimento de quadris em marcha lenta. Slade estava absorto, semiconsciente, tragado pelo festim dos sentidos. O ritmo aumentou. Percebia cheiro de transpiração, perfume, sexo, hálito, álcool, mofo, poeira, ruído nas molas, no assoalho, o bafejar cálido da rua entrando pela janela. E um estalido. Mais rápido. Acima de tudo, ele sentia a vitalidade que ardia, jorrava, prestes a queimar feito chama. Ele entreviu a jovem com a garrafa, cavalgando-o. Novamente aquela crepitação, fina, quebradiça. Ela acelerou. O gargalo mergulhara nos lábios vorazes da moça, líquido escorrendo pela garganta. E o som de atrito.

O tenente saiu de dentro dela. Confuso, tentava processar o que seu cérebro privilegiado registrara, mas não compreendia.

A africana não estava bebendo da garrafa. Estava mastigando vidro.

A expressão da mulher se transformou. De pé, ela erigiu a postura, nariz empinado, arrogante. Os punhos fechados, apoiados na cintura do vestido branco. A linda boca tentadora se abriu num riso cheio de dentes branquíssimos. Os olhos, estes estavam cerrados.

O pior foi a gargalhada, a sonora risada de escárnio que preencheu o ambiente, que zombava da força dele, de sua racionalidade, pois ali tais coisas não valeriam de nada.

Wilson recuou. As calças o atrapalharam. Ele foi ao chão, seminu, indefeso.

“O súcubo...”.

A negra estendeu as mãos de compridas unhas vermelho-sangue. Elas fediam a terra úmida, revolvida. Pulseiras e brincos tilintavam sob a risada medonha. O som de atabaques rugia distante. As paredes se aproximaram, o teto se curvou. Slade fora devorado por algum poder indescritível, tendo em seu encalço a criatura sinistra. Tudo se fechava ao redor, diminuía, encerrando-o num espaço exíguo, escuro, onde só o que ele podia fazer era gritar.

Oito cartuchos foram deflagrados. Somente um atingiu a mulher. Uma grande mancha banhou a parede, escorrendo até o rodapé. O estrago daquela única bala na carne foi impressionante.

Quando os colegas mercenários chegaram, o americano jazia debaixo do chuveiro ligado. A arma ainda estava na sua mão. Os braços sobre os joelhos, o rosto escondido para ninguém ver sua face.


Obs:
[1] Essa era a filosofia de Cobra Venenosa, líder da Irmandade da Serpente. Castle enfrentou o grupo no arco Carne e Aço, em Justiceiro 53 até 59;

[2] Essas foram palavras do Homem-Areia. Frank e o Homem-Aranha enfrentaram-no no arco A Tênue Linha Escarlate, publicado nas séries Justiceiro 48 até 50 e em Homem-Aranha 34 e 35.

[3] Ulysses Klaw é o mercenário belga que atacou Wakanda em busca do valioso metal Vibranium. Ele foi derrotado pelo Pantera Negra e perdeu uma mão na batalha. Klaw acoplou um emissor de raios sônicos no lugar da mão destruída, se tornando o Garra Sônica. Porém, esses eventos são posteriores aos narrados nesta edição.

[4] Marc Spector se rebelou contra os atos cruéis do líder de seu bando, Roald Bushman. Ele foi abandonado no deserto para morrer. Acabou voltando à vida diante de uma estátua de Konshu, o deus egípcio da lua. Vestindo a capa do ídolo, ele se tornou o herói Cavaleiro da Lua. Naturalmente, isso tudo ocorreu após os eventos desta edição.

Posted on Monday, July 06 @ 01:00:00 BRT by Henrique_JB
 
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