Começa a busca de Capris Catagliano para encontrar as entidades que compõem os Sete Seles Sagrados.
Seu primeiro alvo é a Vida.
Capítulo 27
Sete Selos Sagrados: Vida
Por Bárbara_Nikita
Índia
Uma das civilizações mais antigas do nosso planeta, a Índia, é um país de contrastes. Apesar da essência do passado ainda ser muito forte em sua cultura, o progresso deste grande país é eminente. Sua economia hoje é considerada a segunda em maior desenvolvimento no mundo. Mesmo assim, ainda sofre de altos níveis da pobreza, analfabetismo e má nutrição.
Essas características são facilmente notadas em diversas localidades da Índia, porém, fica muito mais visível quando se visita sua maior cidade, Bombaim, com cerca de 20 milhões de habitantes, onde uma considerável porcentagem migram de diversas partes do país. Estes são atraídos pelas inúmeras oportunidades comerciais e ao nível de vida relativamente alto.
Não era necessário fazer um passeio turístico pela cidade para reparar que grande parte de sua população é extremamente pobre. Há muitas pessoas espalhadas pelas ruas, vivendo ali mesmo pelas calçadas e vielas. Sem contar as favelas que abrigam metade da população desta grande capital financeira da Índia.
Com tantos lugares interessantes para conhecer em Bombaim, como A Porta da Índia ou o Hotel Taj Mahal Palace & Tower, Capris não imaginou que passaria boa parte de sua viagem em uma das inúmeras favelas da cidade. Não é o tipo de programa que ela gostaria de fazer, mas seus interesses, hoje, vão além de turismo.
Capris Castagliano chegou por volta das 13hs na casa de seu contato, Rajneesh Rushdie. Ao contrário do que Capris achava, não foi difícil convencer Rajneesh de apresentá-la à menina. Apesar da devoção e crença dele, ainda sim, era um homem ambicioso. Algumas notas de rúpia fizeram a diferença.
Da janela, Capris observava os moradores. Aquela favela mostrava uma miséria tenebrosa. A criminalidade e prostituição ficavam expostas sem o menor pudor. Os becos de terra, o esgoto a céu aberto, insetos e ratos rondando os barracos compunham a paisagem do local. Ainda sim, mediante todo aquele infortúnio, os moradores demonstravam uma alegria inexplicável. Talvez fosse pelo fato de ali residir uma pessoa especial. Eles a chamavam de Kamala – a menina que cura. Era como um milagre divino enviado para livrá-los de todo o mal que os assolava.
Acreditava-se que Kamala era a reencarnação da Aditi, Deusa hindu responsável pela ordem primordial. Os indianos acreditam que Aditi é capaz de acolher todas as vidas e libertar os humanos de todas as doenças. Ela é a Deusa Mãe e seu símbolo é o espaço infinito. É uma Deusa protetora dos partos e da saúde. Representa a amplitude, a extensão e a liberdade. É considerada ainda, a Deusa que permite o florescimento, faz desaparecer o rastro do pecado, da impureza e da doença.
Kamala já havia curado febres, pequenos ferimentos, gripe e até cegueira. Não é de se espantar que achassem que a menina era uma Deusa, principalmente com um dom tão nobre quanto o de cura. Em frente à sua casa, colocavam oferendas como agradecimento por todos os benefícios que ela causou.
Enquanto Capris aguardava o momento de ver Kamala, ela conversava com Rajneesh sobre a condição da menina e o porquê de seu interesse em conhecê-la. Ela havia explicado que não estava ali por motivo de doença, mas sim de devoção. Capris afirmou ser amante da cultura indiana, demonstrando um grande conhecimento sobre seu povo e seus Deuses. Quanto mais ela falava, mais convencido o homem ficava e isso já era o suficiente para conseguir a aprovação dos pais de Kamala.
O último visitante havia acabado de entrar. Finalmente, dentre alguns minutos, Capris estaria frente a frente com a menina com o poder de cura, que segundo os moradores locais era a reencarnação de uma Deusa. Porém, Capris conhecia a verdadeira fonte desses poderes. A menina não era uma Deusa, mas sim a hospedeira de uma entidade milenar chamada Vida.
Assim como Ângelus, Vida é uma entidade que só escolhe mulheres como hospedeiras, independente de cor, credo e idade. Na verdade, Vida não tem muitos critérios. Além do sexo feminino, somente outro é imprescindível: Emoção. E quem melhor do que a mulher para expressar tão bem essa característica?
A esposa de Rajneesh entrou na sala trazendo os pais de Kamala. Eles haviam concordado em receber Capris com a condição de conversar antes com ela. Queriam analisá-la, já que era a primeira estrangeira a visitar sua filha.
- Diga a eles para não se preocuparem, Rajneesh. Minhas intenções são nobres.
O homem traduziu.
Os pais de Kamala já haviam conversado com a esposa de Rajneesh, por alto, sobre a vinda de Capris e de acordo com o que ela havia dito, a estrangeira tinha boas intenções mesmo. Não era médica e nem veio pedir que a garota a curasse, ela apenas queria conhecer uma Deusa viva. Isso fazia com que os dois se sentissem importantes. Mexia com o ego. E Capris sabia lidar muito bem com essa característica da humanidade.
Quando os pais de Kamala levaram Capris para dentro de sua casa e a apresentaram à menina-deusa, ela teve uma impressão diferente do que havia imaginado até agora. Quando se é associada a uma das mais importantes divindades de uma cultura, é mais do que lógico que a pessoa alvo da comparação se sinta enaltecia e seu ego seja aflorado. Mas não Kamala. A garota, na verdade, demonstrava humildade e bondade em seu olhar. Tinha uma expressão profunda e um belo sorriso.
- Escutei falar sobre você quando visitei o sagrado Rio Ganges. Parece coisa do destino. Já havia tido a oportunidade de estar ali por duas vezes e somente na terceira eu aceitei.
Enquanto Rajneesh traduzia, os pais de Kamala erguiam as mãos para o céu e diziam que aquilo era coisa divina.
- Eu não vou tomar muito do seu tempo. – Capris abre a bolsa e retira um lindo laço vermelho.
Há alguns dias, quando iniciou a busca pelo hospedeiro da entidade Vida, Capris induziu, através de magia, a projeção consciente de seu corpo no Plano Astral. Não foi difícil achar o que se deseja quando se usa magia para auxiliar nessa viagem, mas mesmo assim, por ser inexperiente, Capris não pode permanecer por muito tempo no Astral. Ela viu Kamala rapidamente e identificou um laço vermelho amarrando o alto de sua trança. O laço já estava velho, sujo e desbotado. Com certeza ela gostaria de ganhar um novo.
Quando viu o presente que Capris havia trazido consigo, os olhos de Kamala brilharam. Desde que ela começou a curar, nunca trouxeram algo que realmente se identificasse com ela. As oferendas que depositavam em frente à sua porta eram para a Deusa Aditi, que se resumia a comidas, velas e incensos.
Capris entregou o presente e perguntou se poderia colocar o laço em seu cabelo. Os pais de Kamala consentiram. Então ela se pôs atrás da menina, retirando com cuidado o laço desbotado e colocando o novo em seus cabelos.
- Ficou linda. – Disse Capris. Ela sorriu para a menina e enquanto a inocente Kamala se olhava no espelho e contemplava seu presente, Capris castagliano retirava uma pedra da bolsa. Em uma das mãos ela segurava a pedra e em outra o velho laço de Kamala.
- Vida, eu a invoco!
Ela estende as duas mãos na direção da menina. A pedra começa a brilhar.
- Ofereço-me a ti como sua hospedeira!
Os presentes na sala não entendem o que está acontecendo. Nem Rajneesh, mesmo com o seu conhecimento da língua inglesa.
- Vida, senhora da ordem primordial. Mãe protetora. Conceda-me essa graça e faça de meu corpo o seu recipiente.
Kamala começa a se sentir mal. Ela aperta a mão contra seu peito. Algo está errado. Uma onda de luz rodeia a menina. Seus pais e Rajneesh são expelidos bruscamente por uma força invisível. Naquele momento, somente Capris e Kamala permanecem de pé e parcialmente acordadas. A pedra na mão de Capris aumenta o poder de sua magia.
- Vida, eu a invoco! Ofereço-me a ti como sua hospedeira! Vida, senhora da ordem primordial. Mãe protetora. Conceda-me essa graça e faça de meu corpo o seu recipiente.
Nesse momento, uma luz ofuscanete sai do corpo de Kamala e é atraída até o corpo de Capris, que leva a pedra ao seu peito no momento em que a luz passa para dentro dela.
- Adormeça, Vida, e aguarde meu chamado.
As luzes desaparecem e Kamala cai de joelhos. Ela sente seu corpo fraco, mas não liga pra isso. Olha em volta da sala procurando por seus pais e encontra sua mãe, que tem um forte ferimento na cabeça. O sangue não pára de escorrer. Ela vai até ela e temendo por sua vida não hesita em lhe curar. Ela põe as mãos no alto de sua cabeça e como diversas vezes já feitas ela se concentra, mas dessa vez não funciona. Sa mãe não está sendo curada. Ela tenta mais uma vez. Nada. Sua mãe morre na sua frente. A menina cai em desespero... Ela olha em volta e não vê mais a mulher estrangeira ali.
Capris sai andando por entre as pessoas como se nada tivesse acontecido. Alguns moradores que ainda estavam por ali, correm para saber o que aconteceu quando a garota começa a gritar. Eles veem sua mãe morta, seu pai e Rajneesh feridos. Kamala grita que não consegue mais curar e que a culpa é da mulher estrangeira.
Àquela altura já era tarde para procurarem por Capris. Ela simplesmente havia desaparecido.
O feitiço usado foi extremamente eficaz. O selo conhecido como Vida agora estava dentro de seu corpo, porém em estado de Hibernação. Assim que chegasse a hora ela viria à tona e ocuparia seu espaço no recipeiente junto com os outros seis selos, mas para não haver problemas, Capris precisava ser rápida. Seu próximo destino seria Londres.
Na próxima edição:
Capris vai atrás da Morte, que habita o corpo do padre Alex Bernier, o conhecido Devorador de Pecados.
Ela terá que confrontar seus próprios demônios para lidar com essa entidade.